20 de ago de 2010

OS ENGANOS E AS OPORTUNIDADES DO PÓS- MODERNISMO

Introdução:
A segunda metade do século XX assistiu a um processo sem precedentes de mudanças na história do pensamento e da técnica. Ao lado da aceleração avassaladora nas tecnologias de comunicação, de artes, de materiais e de genética, ocorreram mudanças paradigmáticas no modo de se pensar a sociedade e suas instituições.
De modo geral, as críticas apontam para as raízes da maioria dos conceitos sobre o Homem e seus aspectos, constituídas no século XV e consolidadas no século XVIII.
A Modernidade surgida nesse período é criticada em seus pilares fundamentais, como a crença na Verdade, alcançável pela Razão, e na linearidade histórica rumo ao progresso.
Para substituir estes dogmas, são propostos novos valores, menos fechados e categorizantes. Estes serviriam de base para o período que se tenta anunciar, no pensamento, na ciência e na tecnologia, de superação da Modernidade. Seria, então, o primeiro período histórico a já nascer batizado: a Pós-Modernidade.
Desenvolvimento:
Diversos estudos do mundo urbano globalizado coincidem ao reconhecer traços comuns da cultura contemporânea que exercem forte influência sobre a juventude e os adultos. Eis alguns aspectos:
- Centralidade das emoções e relativização dos valores e das tradições.
Funcionam escolhas de experiências sem critérios absolutos. Valoriza-se mais o flexível, o momentâneo, anseia-se gozar o momento presente, com poucas perspectivas para o futuro. Têm-se dificuldades com o silêncio interior.
- Uma geração de pouca leitura, de debilidade intelectual, uma geração de imagem, acostumada a estímulos constantes para manter sua atenção.
Uma geração “zapping” com controle remoto na mão, mudando de canal em canal para encontrar novos estímulos. Ao mesmo tempo, há necessidade de levar em conta que talvez esteja havendo mudança nos modos de ler, por exemplo, através da Internet.
- A não-crença em compromisso definitivo, nem na vida religiosa, nem na vida familiar.
Tudo isso afasta e amedronta. Muda-se o modo de enfrentar os compromissos, há grande dificuldade e medo em se escolher uma faculdade, uma profissão… em definir um projeto de vida.
- Opção por relações interpessoais e horizontais.
Preferência por relações democráticas de tolerância horizontal e aberta. Os grupos de amigos são mais valorizados do que as relações familiares. Há uma rebeldia diante de instituições retrógradas e uma impaciência com autoridades despóticas. Percebe-se também o sentimento de pertença nas motivações e experiências horizontais e democráticas, menos segregação racial e situações preconceituosas e maior tolerância e sensibilidade a múltiplas formas de vida.
- Fragmentação da identidade, isto é, maior confusão quanto à imagem de si mesmo.
Os jovens buscam o anonimato e distanciam-se de relações estáveis.
- Maior entrosamento entre os gêneros masculino e feminino.
Encontram-se homens que vivenciam harmoniosamente traços da feminilidade e mulheres que entram no mercado da força de trabalho em crescente igualdade de condições. Por isso, maior aceitação do homossexualismo e do modelo unissex de vestuário.
- Enfoque da subjetividade.
Está centrado quase unicamente nos seus problemas e necessidades pessoais.
- Desinteresse pela macro-política e grandes estruturas.
Há uma maior inclinação diante das pequenas transformações de ideais culturais do que de grandes obras ou revoluções. Individualista (e não solidária), conservadora (e não progressista), alienada (e não engajada), apática (e não participativa).
- Preferência pelo sincretismo religioso e pelas formas religiosas ecumênicas.
Maior liberdade de expressão e dificuldades em viver vinculado a valores institucionais, a uma estrutura de paróquia e à figura de autoridade. Há uma volta ao sagrado, mas um sagrado mais privado, mais light, menos exigente.
- Tendência ao hedonismo e vulnerabilidade psicológica.
Dificuldade de elaboração de momentos de frustração, do tempo de espera, das angústias, e opção preferencial pelo prazer e pela felicidade, entretenimento e consumo imediato. Não questiona a sociedade de consumo. Frente aos desafios e obstáculos que a vida coloca no caminho, a tendência é desistir. Busca-se imperativamente a felicidade.
O home pós-moderno é “Um sujeito solto, sem rumo, arrastado pelos neurolépticos, pelo consumo metonímico, pela imagem narcisista, pelo massacre da mídia, pela velocidade do tempo urbano e pela religião espetáculo…”.
- Papel dos adultos.
Para Maria Rita Kehl, a vaga de adulto, em nossa cultura, está desocupada. (“Juventude e Sociedade do Projeto Juventude”). Outros teóricos dizem que a cadeira está ocupada por um adulto diferente, ainda não decifrado.
- Ausência dos pais.
Os jovens externam a percepção de que os pais estão ausentes e alguns já sinalizam que as coisas poderiam melhorar na estrutura familiar, porque os papéis não estão sendo devidamente assumidos ou a liberdade anda excessiva, ou o tempo de convivência está ficando cada vez mais restrito.

O pensamento Pós-Moderno esvaziou a religião formal.
Na Pós-Modernidade, a fé deixou a dimensão pública e restringiu-se à esfera privada.
Na tentativa de se libertar de uma cultura religiosa com padrões morais absolutos, o indivíduo pós-moderno criou uma religiosidade interiorizada, subjetiva e sem culpa.
As pessoas querem optar pela sua “preferência” religiosa sem ser importunadas por opiniões contrárias. Os critérios que orientam essas escolhas são todos íntimos e subjetivos. Semelhantemente, também não tentarão impor sua nova opção de fé a ninguém.
Na Igreja, o que antes era convicção, hoje é opção. Os mandamentos divinos passaram a ser sugestões divinas. A igreja é orientada por aquilo que dá certo e não por aquilo que é certo. O pragmatismo missionário e o “novo poder” da igreja (político, econômico, tecnológico, etc) esvaziou o significado da oração e seu espaço na tarefa da igreja. Confiamos mais em nossos recursos e menos em Deus, super estimamos o poder de César e subestimamos o poder de Deus. As ferramentas ideológicas e tecnológicas tornaram-se mais eficientes que a comunidade e a comunhão.
Encontramos a versão evangélica da pós-modernidade em algumas denominações do neo-pentecostalismo. Este ramo do protestantismo possui diversos traços de continuidade cultural com o catolicismo popular latino-americano. Continuidade que muitas vezes desemboca em sincretismo e no reforço de práticas e concepções corporativistas. O protestantismo ou os evangélicos ortodoxos (fiéis a igreja primitiva), por sua vez, é a religião da escrita, da educação cívica e racional. Favorece uma cultura política democrática e promove uma pedagogia da vontade individual.
Entende-se por “evangélicos tradicionais” todo o conjunto de instituições religiosas surgidas em conseqüência da Reforma Religiosa do século XVI, muitas avivadas pelo derramar do Espírito Santo no início do século XX, e que procuram manter os princípios básicos que formam o princípio protestante da liberdade: a justificação pela fé, a “sola scriptura”, o livre exame da Bíblia e o sacerdócio universal de todos os cristãos.
Hoje em dia é difícil incluir entre os protestantes alguns setores do neo-pentecostalismo. Esta é a opinião do Dr. Ricardo Mariano que analisou os modernos movimentos neo-pentecostais e segundo ele:
“O neo-pentecostalismo, o responsável pela “explosão protestante”, à medida que passa a formar sincretismos, a se autonomizar em relação à influência das matrizes religiosas norte-americanas, a promover sucessivas acomodações sociais, a abandonar práticas ascéticas e sectárias, a penetrar em novos e inusitados espaços sociais e a assumir o status de uma grande minoria religiosa, cada vez menos tende a representar uma ruptura com a cultura ambiente. Tende, pelo contrário, a mostrar-se menos distintivo, mais aculturado, mais vulnerável à antropofagia brasileira e, portanto, cada vez menos capaz de modificar a cultura que o acolheu e na qual vem se acomodando”.
Alguns grupos neo-pentecostais, pelo contrário, provêm da cultura religiosa do catolicismo popular, corporativista e autoritário. É a religião da lábia, do engano e da corrupção. Ele favorece o analfabetismo bíblico. Esta nova religiosidade evangélica é um tipo de ocultismo, recheado de citações bíblicas. Muitas igrejas há muito deixaram de ser evangélicas, tornando outra forma de expressão religiosa, distante do pensamento protestante e reformado.
Uma das rupturas mais sérias desses grupos com o pensamento protestante é o uso da Bíblia. No Protestantismo a Bíblia é sua última autoridade, não a tradição ou personalidades importantes ou mesmo a experiência espiritual, enquanto que alguns do neo-pentecostalismo enfatiza o uso mágico da Escritura. Para esses, a Bíblia é mais um oráculo a ser consultado do que a única regra de fé e prática.
Em Brasília, um jornal local publica semanalmente um anúncio estranho: “Revela-se por Profecia” (sic). A promessa por trás dessa mensagem é a solução imediata dos problemas, dos encostos e das maldições, tal como as inúmeras videntes que infestam os grandes centros urbanos. Normalmente nestas sessões, a vidente se posta diante do pedinte com uma Bíblia aberta. A intenção é encontrar “na palavra” a solução para os problemas. Os versos bíblicos são interpretados fora de contexto, sempre na busca de uma “palavra de bênção”.
Nesses movimentos, as doutrinas bíblicas foram rejeitadas e substituídas por um falso evangelho centralizado no homem. Boa parte da pregação é um mero exercício de auto-ajuda, com a intenção principal de acalmar a consciência pecaminosa com promessas de riqueza e bem-estar. Contudo, o mandamento para todos os ministros cristãos, ainda continua sendo, prega a palavra (I Tm. 4:1), em lugar disso, os pregadores se transformaram em animadores de auditório.
O que fazer?
Nossa tarefa apologética para esta era pós-moderna é restaurar a confiança na verdade. A Bíblia continua sendo a Palavra de Deus. A Bíblia é um documento inspirado da revelação divina, quer este ou aquele indivíduo receba ou não o seu testemunho. Devemos, pois, respeito e obediência à Bíblia, não por ser letra fixa e estática, mas porque, sob a orientação do Espírito Santo, essa letra é a Palavra viva do Deus vivo dirigida não só ao crente individual, mas à Igreja em geral.
A igreja precisa rever sua atuação, olhando para o Senhor Jesus e lançando-se humildemente de volta às Escrituras, resgatando sua identidade e o seu chamado. Se abrirmos mão da Palavra de Deus como verdade absoluta, correremos sérios riscos diante de uma sociedade sem referenciais, mas principalmente diante de um Senhor zeloso que rege a história e têm em suas mãos todo o domínio e todo o poder.
Reflexão sobre as possibilidades de evangelização eficaz na pós-modernidade.
Antes de qualquer outra coisa, é preciso lembrar que a pós-modernidade não atinge a todos e todas igualmente. Vivemos em tempos históricos diferentes, embora estejamos na mesma data do calendário ocidental. Há pessoas cujas estruturas de pensamento são tipicamente modernas, e até mesmo pré-modernas. Além do mais, nunca somos uma coisa só.
Somos um complexo de tudo o que herdamos da genética e da cultura com o encaminhamento pessoal que damos a essa herança biosocial. Assim, o que se fala aqui são pistas para serem levadas em conta na hora de pensar as estratégias, não uma receita que serve para todos e todas em todos os lugares. O mundo pós-moderno é plural e exige pluralidade de abordagens para ser alcançado pelo evangelho.
Ao invés de lamentar o passado que não volta, parece ser mais efetivo aproveitar as oportunidades que a pós-modernidade oferece, em vez de ir para a trincheira e gastar as forças lutando contra o que de fato não é o inimigo. Mesmo porque independentemente de se gostar ou não da pós-modernidade e suas características, isso não vai impedir a pós-modernidade de acontecer. Os movimentos históricos acontecem conosco ou sem nós.
Então, não adianta espernear, ficar com saudosismo, o melhor é achar as fissuras para nelas introduzir o evangelho.
Seguem abaixo algumas possibilidades sobre estratégias e ações de evangelização:
• Identificar o grupo para o qual se está anunciando.
Não é muito producente falar com formados nas áreas das humanas com um discurso absolutista, triunfalista e arrogante, do tipo: está provado que Deus existe. Mesmo porque as provas racionais hoje têm cedido lugar para as crenças. Assim, mesmo que se perceba certa coerência lógica e racional, alguns discursos são rejeitados porque não atingem a condição existencial.
• Lembrar que a nossa tarefa é tirar os entraves que impedem as pessoas de crer.
Somos uma espécie de lavradores: nosso trabalho é limpar o terreno para que a lavoura possa ser semeada. Isto é, demonstrar que faz sentido acreditar em Deus e ter uma vida com ele. Todavia, não se deve esquecer que o fazer sentido passa pelo sentido existencial, não simplesmente intelectual.
• Oferecer condições de culto em que a experiência com o sagrado esteja presente.
Devemos lembrar que conquanto tenha implicações éticas, o cristianismo não se define pela normatização da vida, mas pelo relacionamento com a pessoa de Cristo. O culto não pode se transformado em aulas nem apelar simplesmente para a razão. O intuito do culto não é simplesmente proporcionar compreensão, mas relacionamento, um estar-diante-de- Deus e com a comunidade de fé.
• Oferecer um sistema simbólico coerente para ordenar a vida das pessoas.
Lembrar que enquanto os símbolos que orientam a vida de uma pessoa não estão em crise, essa pessoa não estará disposta a aceitar outros símbolos, mas quando isso acontecer, é a oportunidade e Cristo deve ser anunciado. Todavia, não insistir ou perder tempo com o fruto verde, colher o fruto maduro.
• Pregar para a pessoa toda, não simplesmente para o intelecto.
Mesmo porque o viés pelo qual a pessoa pós-moderna vive a religião não é primariamente racional, mas emocional. Celebração e emoção são partes da vida humana. O cristianismo não pode ser apresentado como algo triste e enfadonho. Não devemos eternizar a tristeza da sexta-feira da paixão, mas a alegria do domingo da ressurreição.
Permitir que o Deus bíblico tome o lugar do Deus onto-teo-lógico.
Por exemplo, no Antigo Testamento Deus não é representado, nem por imagem, nem por conceito. Entretanto, a teologia cristã posterior transformou as metáforas sobre Deus em definições sobre Deus. A teologia vetero-testamentária não tinha a pretensão de achar que conhecia racionalmente a Deus. Tinha humildade em reconhecer Deus como incognoscível.
• Ter um discurso coerente com a prática.
As pessoas pós-modernas estão dispostas a aceitar quase tudo devido sua ênfase no pluralismo e na relatividade, mas continuam não aceitando a incoerência daqueles que se definem de um jeito e vivem de outro. O testemunho sincero, sem farisaísmo, sem falsa santidade e o desenvolvimento de relações humanas verdadeiras são eficazes sempre. Os cristão são o quinto evangelho, na prática mais “lido” que os outros quatro. A questão é: o que é lido em nós!
Ao evangelizar, não passar a impressão de superioridade.
Isso não quer dizer que não se acredita que o cristianismo possa ser a melhor resposta. Quer dizer que você não se porta como o único dono infalível da verdade. Isso cria barreiras e resistência, dificultando a pessoa de aceitar o que você anuncia.
É preciso viver “o evangelho de modo pós-individualista, pós-racionalista, pós-dualista e pós-noeticêntrico.”
Pós-individualista.
Tendo por foco a comunidade, o mundo pós-moderno nos estimula a reconhecer a importância da comunidade de fé em nossos esforços evangelísticos. Os membros da nova geração, geralmente, não se impressionam com nossas apresentações verbais do evangelho. O que desejam ver são pessoas que vivenciam o evangelho em relacionamentos integrais, autênticos e terapêuticos. Centrando-se no exemplo de Jesus e dos apóstolos, o evangelho cristão da era pós-moderna convidará outras pessoas a participarem da comunidade daqueles cujo alvo de lealdade maior é o Deus revelado em Cristo.
Pós-racionalista.
Isso significa que não podemos simplesmente comprimir a verdade nas categorias de certeza racional que são típicas da modernidade. Em vez disso, ao entender e expressar a fé cristã temos de dar espaço para o conceito de “mistério” – não como complemento irracional ao racional, mas como algo que nos lembra que a realidade fundamental de Deus transcende a racionalidade humana.
Pós-dualista.
O projeto iluminista ergueu-se com base na divisão da realidade em “mente” e “matéria”... Os cristãos impregnados da perspectiva do iluminismo freqüentemente dão expressão a um evangelho dualista. Sua preocupação principal, senão única, consiste em salvar “almas”. Se, porém, vamos ministrar no contexto pós-moderno, devemos estar cientes de que a nova geração está cada vez mais interessada na pessoa humana como um todo.
Pós-noeticêntrico.
O evangelho cristão pós-noeticêntrico ressalta a relevância da fé em todas as dimensões da vida. Ela não permite de forma alguma que o comprometimento com Cristo estacione simplesmente num esforço intelectual, deixando que se transforme unicamente num assentimento a proposições ortodoxas. O comprometimento com Cristo deve também achar guarida no coração. Na verdade, o mundo pós-moderno dá-nos ocasião para que nos reapoderemos da velha crença pietista segundo a qual uma cabeça boa não tem valor se o coração também não for bom.
Apesar desses possíveis métodos e metodologias, o que mais deve ser ressaltado quanto à evangelização na pós-modernidade, é o fato de que é determinante a criatividade e a pluralidade de ações. A questão é que para muitos parece que todas as respostas teológicas possíveis já foram dadas, que todos os métodos e estratégias já foram tentados, que por isso, nada tem que ser mudado, apenas insistir nos já consagrados modelos.
Porém, é preciso ressaltar que a diversidade social pós-moderna demanda a pluralidade evangelizadora. É preciso diversificar as estratégias, as ações. É necessário investir em tipos de ministérios diferentes, em formas novas de abordagens. É indispensável lembrar que o que dá certo num lugar, pode não dar no outro. A pós-modernidade é um desafio à nossa criatividade e coragem para continuar a evangelização de modo relevante de tal modo que mais pessoas se tornem discípulos de Cristo, como sempre ocorreu na história da igreja e da teologia.

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