18 de ago de 2010

Onde está a igreja?


Mt. 18:20Pois onde houver dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou ali com eles”.
A igreja está ficando cada vez mais complexa. Temos muitos pacotes, opções e formatos. Vejam alguns exemplos: igreja-família; igreja-hospital, igreja-escola; igreja-exército; igreja-asilo; igreja-disneylândia; igreja-shopping-center, igreja-tecnológica; igreja-projeto-social; igreja-umbandinizada.
A realidade da igreja leva-nos a uma importante pergunta: onde está a igreja? Deus tem um endereço em nossas cidades e comunidades? Se a Igreja é o Seu Corpo, o endereço da igreja não deveria estar no cartão de visitas de Deus? Se minha filha muda-se para outra cidade onde não houvesse uma igreja conhecida e me perguntasse de qual igreja ele deveria participar, o eu responderia? 
Creio que devo dar a ela algumas marcas que poderiam distinguir a igreja de Cristo de outras assembléias. Quero enfatizar 4 marcas ou funções principais da igreja no mundo: Martyria, Diakonia, Koinonia e Kerigma.
Martyria: A palavra grega para "testemunho" é martyria. Os mártires da igreja primitiva foram testemunhas fiéis. O risco do testemunho os levou a sofrer por amor a Cristo. Além disso, a igreja martírica reafirma a necessidade dos cristãos se tornarem maduros. Paulo fala da meta que o cristãos deve ter de ser maduro (Ef 4.13). E ele ainda exorta veementemente: "tornem-se meus imitadores, como eu o sou de Cristo" (1Co 11.1). Suas palavras parecem sugerir que ser um cristão é "entrar em um relacionamento tão íntimo e profundo com Cristo que os cristãos, de certa forma, começarão a imitá-lo em conseqüência deste relacionamento”. Imitação é desta maneira, o fruto, e não uma condição prévia da fé. Tornar-se um cristão é começar o processo, não de conformar-se, mas de ser conformado a Cristo.
Envolve o discipulado "faça discípulos de todas as nações..." Mt 28:19. Entrar num relacionamento tão íntimo e profundo com Cristo que os cristãos, de certa forma, começarão a imitá-lo em conseqüência deste relacionamento. A Palavra de Deus é indispensável para o discipulado. Paulo exortou os cristãos colossenses a deixar habitar "ricamente em vocês a palavra de Cristo" (Cl 3.16).
Cipriano de Cartago disse: Esta é a vontade de Deus que Cristo fez e ensinou. Humildade na conversação; perseverança na fé; modéstia nas palavras; justiça nas ações; misericórdia no trabalho; disciplina na moral, ser incapaz de fazer o mal, ser capaz de agüentar quando o mal é feito; manter a paz com os irmãos; amar a Deus com todo o coração; amá-lo como Pai e temê-lo como Deus.
A pergunta que sempre devemos fazer é: "Que tipo de comunidade queremos plantar no Brasil"?
A igreja saudável vive este equilíbrio entre as ênfases da igreja, não agindo unilateralmente ou focalizando somente um ou dois aspectos. Para que a igreja seja efetiva no mundo ela deve ter uma compreensão própria de sua natureza, sua essência e funções.
Diakonia: A palavra grega diakonia é simplesmente traduzida por "serviço". A idéia básica é a do serviço à mesa, mas ela acabou sendo usada de maneira geral para serviço, comumente para tarefas domésticas. Lucas, por exemplo, registra um arranjo primário da jovem igreja em Jerusalém pelo qual os líderes servem comida às viúvas e aos necessitados em comunhão (At 6.1). O sentido de serviço não pode se limitar a isto sem se tornar barato demais. A palavra "diaconia" expressa melhor o conceito de serviço em amor que qualquer outra palavra grega relacionada. A Grande Comissão deve ser acompanhada pela Grande Compaixão em atos como alimentar o faminto, cuidar do estrangeiro e do refugiado, vestir os que estavam nus, visitar os prisioneiros...
A busca pelo equilíbrio no serviço a Deus e serviço ao mundo é uma tensão contínua.
Este equilíbrio, que é também o todo, é expresso nas palavras de Cristo: "Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças... ame o seu próximo como a si mesmo" (Mc 12.30-31).
Estes dois mandamentos correspondem também às duas tábuas do Decálogo: leis de um a quatro, sobre amar a Deus, e leis de cinco a dez, sobre amar o próximo. A vida regenerada do pecador justificado tem dois focos principais: Deus e o próximo. Diante da natureza destes dois objetos, é óbvio que as duas principais obrigações do cristão não estejam em pé de igualdade, mas sejam inseparáveis. A adoração a Deus sempre tem precedência em importância; o amor ao próximo é o resultado inevitável.
Harvey Cox destaca que "diakonia realmente se refere ao ato de curar e reconciliar, cuidar das feridas e superar as diferenças, restaurando a saúde do organismo". Isto requer que a igreja viva entre as pessoas na comunidade, imersa em suas realidades, tendo empatia com as suas necessidades e trabalhando com elas para otimizar as bênçãos do Reino.
O serviço cristão deve penetrar em cada camada da sociedade. Como o vento, o Evangelho deve invadir toda a criação. Se a vida física é uma pressuposição necessária para a proclamação do Evangelho, então a igreja deve trabalhar com toda a humanidade e com estruturas que preservem a vida e a dignidade humanas.
A preocupação evangélica não deve ser apenas com a proclamação da graça salvadora de Deus, mas também com a promoção da graça comum de Deus no mundo, pois a graça comum se destina tanto a cristãos quanto a não-cristãos. Jesus disse que Deus "faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos" (Mt 5.45). Governo, escolas, comércio e mercados públicos são áreas legítimas para o envolvimento cristão transformacional.
Há uma razão pragmática para isso, como Edmund Burke expressa claramente: “Para que o mal triunfe tudo o que é necessário é que boas pessoas não façam nada”.
Deus está não apenas na Igreja, mas ele preenche toda a criação.
Koinonia: No Novo Testamento, a palavra grega para "comunidade" é koinonia, uma comunidade de homens e mulheres que crêem em Jesus Cristo como Salvador e Senhor de suas vidas. Na união com Ele, concretizada pelo arrependimento e fé, os pecadores salvos pela graça de Deus são indissoluvelmente incorporados nesta comunidade ou corpo. John Stott declara: "Koinonia fala de nossa herança comum (do que compartilhamos aqui dentro), de nosso serviço cooperativo (do que compartilhamos lá fora) e de nossa responsabilidade recíproca (do que compartilhamos uns com os outros). No primeiro, estamos recebendo juntos; no segundo, estamos oferecendo juntos, enquanto que, no terceiro, há um doar e receber mútuos".
Esta idéia de comunidade é fundamental: Jesus nos ordena que amemos uns aos outros como Ele nos amou. Reconciliados com Deus e uns com os outros em Cristo, a igreja recebe o ministério da reconciliação. Este ministério, para que seja efetivo, requer uma demonstração prévia de realidade - a unidade da igreja - antes que possa sequer falar de reconciliação ou participar de qualquer mediação significativa em conflitos.
O fracasso de muitas igrejas de alcançar igualdade entre seus membros, a integração racial e entre as classes sociais silencia a mensagem de paz social em comunidades. A unidade dos cristãos deve ser experimentada em comunidades locais, como testemunho da Nova Criação em Cristo. 
É claro que a questão é: "como os cristãos podem estar em unidade quando há uma série de razões para a diversidade?" As igrejas, normalmente, estão divididas por causa de personalidade, cultura, denominacionalismo, doutrinas, etc. A imagem que Paulo tem da igreja reflete o mistério, a multiforme sabedoria de Deus, que é brilhante como as cores do arco-íris e variada como as múltiplas cores de um campo de flores (Ef 3.10). Ou seja, a unidade cristã deve ser baseada na diversidade. A igreja tem muitas partes como um corpo, mas é um só corpo (1Co 12).
O lema de Agostinho foi adotado pela Assembléia da Aliança Evangélica em Nova Iorque, em 1783: "In Necessariis Unitas; In Dubiis Libertas; In Omnibus Caritas". Isso pode ser traduzido como: "Nas questões essenciais, unidade; nas não-essenciais, liberdade; em todas as outras, caridade".
Kerigma: "Pregue a palavra; esteja preparado a tempo e fora de tempo" (2Tm 4.2) A palavra grega usada para a idéia de proclamação no Novo Testamento é kerygma ou simplesmente "mensagem".
A igreja tem uma história a contar. Na linguagem comum dos cristãos, a mensagem é que Deus já derrotou "as potestades e principados" em Jesus e possibilitou que homens e mulheres fossem "herdeiros" do Criador do mundo criado. Deus, em Cristo. Agora há descanso, restauração e redenção pela fé em Jesus, nosso Salvador. Esta proclamação ou pregação do Evangelho é indispensável. Ela nega o universalismo, o humanismo ou qualquer outra maneira de se lidar com a condição humana do pecado. A proclamação tem basicamente duas direções.
Primeira, o evangelho deve ser proclamado na igreja. Somos informados de que a igreja é feita de joio e trigo (Mt 13.25, 30, 36). A separação, contudo, terá lugar no dia do julgamento. O Senhor ainda avisa à sua igreja que existem ovelhas e bodes no rebanho (Mt 25.32). O evangelismo na igreja é um ministério necessário. Existe, assim, uma necessidade de reavivar a igreja, acordá-la do seu sono e capacitá-la para a ação. Ao mesmo tempo, também precisamos nos lembrar de que a participação no discipulado não é o mesmo que a própria salvação. O joio e o trigo crescerão juntos.
Segunda, o evangelho deve ser proclamado fora da igreja. Como Jesus disse, "este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo" (Mt 24.14). Por esta razão, Cristo derramou o Espírito sobre o Seu povo. "Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas... até os confins da terra" (At 1.8).
O conteúdo da proclamação cristã é Jesus Cristo. A dimensão kerygmática do Novo Testamento se focaliza em Jesus como Senhor, Cristo e Salvador. A proclamação do evangelho feita por Paulo focalizava a pessoa de Cristo e, mais especificamente, o Cristo crucificado e ressurreto dos mortos. 
A centralidade da cruz de Cristo tem sido por muito tempo um tema de destaque na teologia e espiritualidade evangélicas. McGrath insiste "... que a Cristologia desempenha um papel decisivo na teologia e reflexão espiritual evangélicas, e fornece à teologia evangélica tanto a sua coerência intelectual quanto o seu foco evangelístico e espiritual”. 
A questão “quem é Jesus Cristo?” é desta maneira, determinante para todo o empreendimento teológico evangélico.
Eu sou a igreja. Nós, cristãos somos a igreja, não no plural, mas no singular.

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